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MEMÓRIAS DO RÁDIO PAULISTA

A primeira emissora de São Paulo nasceu em 1924: a Rádio Educadora Paulista, cujo presidente-fundador era Frederico Steidel. Ainda nesse ano, foi criada no Recife a Rádio Clube de Pernambuco. Paulo Machado de Carvalho, então com 44 anos de atividade no rádio, relembrou, em entrevista que me concedeu para o jornalO Estado de S. Paulo (5 de maio de 1974), um pouco da história de lutas da radiodifusão paulista:

“Quando compramos a Radio Record, em 1931, por 25 contos de réis, a emissora era dirigida por boêmios. Dentro de um piano, que não tocava uma nota sequer, encontramos centenas de tampinhas de cerveja, impedindo o movimento das cordas. Microfones de carvão eram acionados aos berros. A parte técnica, com todos os seus equipamentos, estava espremida em um espaço de 4 metros quadrados para a gente trabalhar. Até que, pela primeira vez na história do rádio do País, um grupo de estudantes invadiu a emissora para transmitir uma mensagem subversiva: o pedido de adesão popular à Revolução de 1932, que havia começado em maio. Nessa época, surgiu um dos maiores locutores que o Brasil já conheceu: César Ladeira. Seu boletim, das 2 às 4 horas da manhã, diariamente, terminava com um apelo revolucionário a Getúlio Vargas: Que renuncie o ditador.”

Em 30 de maio de 1932, Alberto Byington Jr. fundou a Rádio Cruzeiro do Sul, que se chamou depois Rádio Piratininga e que foi fechada pelo regime militar em 1974, quando o Ministério das Comunicações rejeitou seu pedido de renovação de concessão. A Rádio Piratininga formou profissionais do rádio como Emílio Carlos, Fauze Carlos e Blota Júnior, além de ter abrigado também César Ladeira.

O rádio brasileiro tem sido utilizado exaustivamente como instrumento de ação política, quer por partidos, quer pelo governo, ao longo dos últimos 50 anos. Em 1935, era criada A Hora do Brasil, programa de uma hora de duração que ia ao ar de segunda-feira a sábado das 20 às 21 horas, com noticiário oficial distribuído pelo famigerado Departamento de Imprensa e Propaganda (o DIP), depois do golpe de 1937. Mesmo após a queda de Vargas, em 1945, o programa sobreviveu, com o nome atual de A Voz do Brasil, sucessivamente reformulado.

A popularidade do rádio atingiu seu ponto máximo dos anos 50. Os programas de auditório evoluíram e foram responsáveis pela maior parcela desse prestígio. O primeiro deles de grande audiência foi produzido e dirigido por Casé (Ademar Casé), “sob o alto patrocínio” de um purgante do Laboratório Queiroz. Casé apresentou e contribuiu para tornar populares artistas como Carmen Miranda, Mário Reis, Francisco Alves, Lamartine Babo, Almirante e Noel Rosa, entre muitos outros. Um jovem maestro foi “lançado” no rádio por Casé: Eleazar de Carvalho. O programa tinha uma variedade incrível (ficção, teatro, radiofonização de histórias reais ou contos policiais; dramatização de episódios históricos, humorismo, canto, paródias etc.) e reuniu  talentos como Orestes Barbosa, Luís Peixoto, Henrique Pongetti e Paulo Roberto. E chegou a realizar até o Teatro Imaginário, que – mais que novela – era a ópera do rádio, com sonorização de palmas, clima de teatro, vozes e tudo mais que lembrasse uma noite no Municipal. 

Foi no rádio que nasceram algumas figuras populares da televisão brasileira (o que explica a fórmula de sucesso e alguns vícios, como o de fazer rádio com imagem na TV): Abelardo “Chacrinha” Barbosa, Flávio Cavalcanti (lançado também por Casé), Silvio Santos, Hebe Camargo, J. Silvestre e outros. 

A luta pela audiência a qualquer custo, porém, tem criado aberrações no rádio brasileiro. Numa tendência moderna, os programas de radiofonização de crimes – a título de informar e prevenir a cidade contra a delinquência – baixam o nível de seus trabalhos até o grau de desserviços  e de deseducação. A violência, o sexo, o roubo, o crime em geral, são os ingredientes de que se valem esses comunicadores primários para conquistar sua audiência.

por Ethevaldo Siqueira






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